Raquel Pacheco chegou ao café em frente ao prédio onde mora – em Moema, bairro paulistano de classe média alta – usando calça jeans cinza, blusa branca levemente decotada e óculos espelhados. Pedi a ela que tirasse os óculos porque queria ver a expressão de seus olhos. Amendoados, eles estavam pintados de lápis preto. Dois dias antes do encontro, Raquel completou 25 anos. Ela disse que comemorou o aniversário com a família do marido, o advogado João Correa de Moraes. Bronzeada, 1,63 metro, 59 quilos, cabelos clareados, tatuagens, ela me pareceu distante da imagem sedutora de Bruna Surfistinha – a prostituta que revelou ao mundo em 2003 suas peripécias sexuais em um blog que ainda hoje tem mais de 20 mil acessos diários. Bruna e Raquel, porém, são a mesma pessoa.

Em 2005, o blog de Bruna foi transformado no best-seller O doce veneno do escorpião, que fez da jovem de Sorocaba, interior de São Paulo, uma celebridade nacional. Agora, o livro deu origem a um filme e a uma peça de teatro, previstos para estrear em 2010. No filme, dirigido por Marcus Baldini, que está sendo rodado em São Paulo, a atriz Deborah Secco viverá Raquel. Na peça, com ensaios previstos para começar nesta semana, em São Paulo, o crítico de cinema Rubens Ewald Filho vai dirigir as atrizes Thalita Lipp e Ellen Roche, que interpretarão Raquel e Bruna Surfistinha.

A ex-prostituta (ela usa essa expressão e pergunta: “Quem disse que não existe ex-prostituta?”) lançou mais dois livros, O que aprendi com Bruna Surfistinha e Na cama com Bruna Surfistinha (ambos da editora Panda Books), que somados lhe renderam 250 mil cópias em 20 idiomas. Agora, está escrevendo o quarto livro, desta vez de ficção. O que ela disse a ÉPOCA, porém, não estará nas telas, no palco ou nos livros. É a história desde a infância de uma menina de classe média que viveu da prostituição por três anos e, a duras penas, conseguiu estabelecer uma nova família.

Raquel diz que sente falta da família em seu aniversário. Ela afirma que a última vez que falou com a mãe por telefone foi em 2004. Com o pai e as duas irmãs, uma de 42 anos e outra de 37, não tem contato desde 2002. “Quando criança, elas eram como minha mãe. Era a bonequinha delas.” Depois que começou a aparecer na mídia, diz que teve receio de procurar a família, por temer a reação ao que ela revelava como garota de programa. “Não estou preparada para escutar o pior: ‘Você não é mais nossa filha’”, diz.

Raquel conta que teve boa infância. Brincava na rua e adorava a liberdade da chácara em que morava em Sorocaba, onde nasceu. Diz que sua família é de advogados e juízes e que o pai esperava que ela seguisse o mesmo caminho. Aos 5 anos, ela aprendeu a ler sozinha. “Foi o único orgulho que dei a meus pais.” Aos 7 anos, soube pela mãe que era adotada. “Ela me disse que eu não tinha nascido da barriga dela, mas que isso não tinha importância.” Ao chegar à escola, perguntou a uma professora o que era adoção. Ouviu que adoção acontece quando os pais não querem mais criar a criança. “Eu me senti um bicho. Cresci com isso, e a revolta veio na adolescência.” De forma brutal.

“Comecei a jogar na cara de meu pai a adoção. Eu ficava chamando ele de tio, só para agredi-lo.” O pai de Raquel tinha sofrido um acidente quando ela estava ainda na pré- -escola e, segundo ela, depois disso, tornou-se uma pessoa amarga. Por conta do acidente, aposentou-se no auge da carreira, entrou em depressão e foi obrigado a tomar remédios.

Os conflitos com os pais pioraram quando ela fez 11 anos, e a família mudou-se para São Paulo. Raquel foi matriculada em um dos melhores colégios da cidade, o Bandeirantes, e os pais esperavam que ela fosse boa aluna, mas as boas notas não vieram. “Eu não podia sair mais, nem com minhas amigas. Eles me tiraram a liberdade da infância, e eu comecei a mentir.” As brigas foram ficando insuportáveis. Com 14 anos, ela afirma ter entrado em depressão. “Eu tinha raiva do mundo. Achava minha família horrível e só tinha vontade de dormir.”




publicado por sattotal às 19:38 | link do post
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